quarta-feira, 30 de abril de 2014

O “Galo da Madrugada” (uma crônica escrita no carnaval) e Contra o veneno do racismo (artigo de Ricardo Matos C. Vieira)


Texto de Valdeci Ferraz – Caruaru/PE 
Publicado no HUMANITAS nº 22 – Maio/2014 – Página 6
A viagem de metrô fora sufocante. Os foliões disputaram os espaços como se aquele fosse o último embarque de um país condenado por uma guerra. Pereira, espremido contra a lateral do trem, fingira se contrariar, pois na verdade tinha adorado o contato de um corpo moreno, de costas, os cabelos dela se misturando com sua barba hirsuta e meio grisalha. Tivesse um folião atento observado com mais atenção, teria visto a simplicidade de sua fantasia: um turbante vermelho circundado por uma faixa preta, o cafetã de linho branco com faixas azuis, descendo suavemente sobre uma proeminente barriga, atingindo os pés na altura dos calcanhares. O que ninguém pôde ver foi a decepção interior de José Pereira por estar solitário no meio daquela multidão multicor. "Ela bem que podia estar aqui. Claro, eu não teria vindo de metrô, mas até que foi legal. Fazer o quê? Chamei-a. Não veio porque não quis". 
Quando nasceu no sábado de carnaval há sessenta anos, o pai logo gritou: vai se chamar José Pereira. Protestos, reclamações, sugestões de nada adiantaram. Com um ano de idade já estava fantasiado de pirata, brincando carnaval nos braços do pai. Os anos passaram, vieram outros carnavais e as fantasias foram se acumulando nas brumas da existência, formando um universo particular, mágico e poético, onde apenas os poetas, as mulheres, a poesia e o carnaval tinham acesso. O Carnaval era a melhor festa do ano. São João, Natal, Ano Novo, nada se comparava ao tríduo momesco, ocasião em que voltava aos velhos tempos, à adolescência quando o colorido, as colombinas e pierrôs, os confetes e serpentinas, os blocos de rua desfilando com belas meninas ao som do frevo ou de uma marchinha.
Só sabe que agora estava ali, o Sultão das Arábias precisava ir ao encontro de suas mulheres trazidas nas asas do “Galo da Madrugada”. Literalmente arrastado pela turba carnavalesca deixou a Estação Central, seguindo em direção à Ponte Duarte Coelho onde se concentrava a maior parte dos adoradores do “Galo”. A brisa vinda do mar fez inflar o cafetã, realçando a bermuda azul. Conferiu a carteira, certificou-se de que a máquina fotográfica digital estava pronta para registrar o que fosse interessante. Ao chegar à Avenida Guararapes lembrou-se de um conhecido que aproveitava o carnaval para faturar um pouco mais vendendo cerveja, refrigerantes e cachorro-quente. Quero molhar a garganta. Mal se assentara, uma antiga colega de faculdade apareceu. Entre umas e outras...
Quarta-feira de cinzas, seis horas da manhã. A ressaca de Momo deixava no ar um cheiro de urina e cerveja. Com passos trôpegos transpôs a praça pública. Os confetes conferiam às ruas, às calçadas, aos muros uma visão de imagens pontilhadas, dando a Pereira a impressão que flutuava num sonho. Um folião esparramado sobre o banco da praça trouxe a imagem da mulher. Deve estar dormindo, talvez nem acorde com minha chegada. A viagem de metrô fora sufocante. Os foliões disputaram os espaços como se aquele fosse o último embarque de um país condenado por uma guerra. Pereira, espremido contra a lateral do trem, fingira se contrariar, pois na verdade tinha adorado o contato de um corpo moreno, de costas, os cabelos dela se misturando com sua barba hirsuta e meio grisalha. Tivesse um folião atento observado com mais atenção, teria visto a simplicidade de sua fantasia: um turbante vermelho circundado por uma faixa preta, a cafetã de linho branco com faixas azuis, descendo suavemente sobre uma proeminente barriga, atingindo os pés na altura dos calcanhares. O que ninguém pôde ver foi a decepção interior de José Pereira por estar solitário no meio daquela multidão multicor. "Ela bem que podia estar aqui. Claro, eu não teria vindo de metrô, mas até que foi legal. Fazer o quê? Chamei-a. Não veio porque não quis". 
Quando nasceu no sábado de carnaval há sessenta anos, o pai logo gritou: vai se chamar José Pereira. Protestos, reclamações, sugestões de nada adiantaram. Com um ano de idade já estava fantasiado de pirata, brincando carnaval nos braços do pai. Os anos passaram, vieram outros carnavais e as fantasias foram se acumulando nas brumas da existência, formando um universo particular, mágico e poético, onde apenas os poetas, as mulheres, a poesia e o carnaval tinham acesso. O Carnaval era a melhor festa do ano. São João, Natal, Ano Novo, nada se comparava ao tríduo momesco, ocasião em que voltava aos velhos tempos, à adolescência quando o colorido, as colombinas e pierrôs, os confetes e serpentinas, os blocos de rua desfilando com belas meninas ao som do frevo ou de uma marchinha.
Só sabe que agora estava ali, o Sultão das Arábias precisava ir ao encontro de suas mulheres trazidas nas asas do “Galo da Madrugada”. Literalmente arrastado pela turba carnavalesca deixou a Estação Central, seguindo em direção à Ponte Duarte Coelho onde se concentrava a maior parte dos adoradores do “Galo”. A brisa vinda do mar fez inflar o cafetã, realçando a bermuda azul. Conferiu a carteira, certificou-se de que a máquina fotográfica digital estava pronta para registrar o que fosse interessante. Ao chegar à Avenida Guararapes lembrou-se de um conhecido que aproveitava o carnaval para faturar um pouco mais vendendo cerveja, refrigerantes e cachorro-quente. "Quero molhar a garganta". Mal se assentara, uma antiga colega de faculdade apareceu. Entre umas e outras...
Quarta-feira de cinzas, seis da manhã. A ressaca deixava no ar um cheiro de urina e cerveja. Com passos trôpegos transpôs a praça pública. Os confetes conferiam às ruas, às calçadas, aos muros uma visão de imagens pontilhadas, dando a Pereira a impressão que flutuava num sonho. Um folião esparramado sobre o banco da praça trouxe a imagem da mulher. "Deve estar dormindo, talvez nem acorde com minha chegada". 
Ao longe um galo cantou. Arregalou os olhos para melhor ver as horas no relógio, que junto com a bermuda eram as únicas coisas que sobrara da fantasia de sultão. Então viu o dia: “qua... Quarta!? Eu bebo e o relógio se embriaga. Saí no sábado, como pode ser quarta? Melhor perguntar a alguém. É, seu Zé, hoje é quarta, o carnaval acabou”. No mesmo instante, os pontos coloridos se rearrumaram e ele se viu saindo do metrô em direção à Avenida Guararapes, naquela manhã luminosa de sábado. As imagens foram chegando embaçadas, embaralhadas. Jocasta. Sim, não podia esquecer aquele nome. E foi na barraca de Roberto. A mulher estava uma coisa. Foram para o meio da folia. Fotos. “Eu tirei fotos dela sim. Cadê a máquina? Puta merda! Perdi a máquina e a carteira! Mas onde? Foi no “Galo” ou em Olinda? Como fui parar em Olinda? Não sei como cheguei lá, mas lembro dos bonecos gigantes, as ruas lotadas. Marco Antonio e sua turma! Agora estou me lembrando. Foi ali que comecei a misturar as bebidas. Nunca me dei bem com o vinho, nem com uísque. Caralho! Devo ter feito alguma merda por lá, num me lembro de tudo. Mas isso foi no sábado para o domingo. Dormi lá, na casa de quem?” Deu um branco na mente, mas lembrou de haver encontrado Valdir e ido ambos ao bairro de Água Fria. “Acho que devia estar ainda com a fantasia senão não tinham me levado. Se ela tivesse ido comigo tenho certeza que isso não teria acontecido”.
Pereira continuou falando sozinho, tentando lembrar mais coisas, mas quanto mais esforçava mais lhe doía a cabeça e a sensação de que tinha ultrapassado seu limite. Chegando mais perto de casa a agonia aumentou. “Que vou dizer a ela? Porra nenhuma! Vou entrar e deitar, depois explico o que aconteceu. Vou lembrar sim. Minha memória é boa. Lembro de um carnaval em que sai com papai e ocorreu algo parecido. Teria ido para cama com alguma mulher? Será que fui roubado em Olinda, em Água Fria? Ora, porra! quem mandou não querer ir comigo”. 
Não precisou bater na porta. Estava aberta. Estranhou. Silêncio total. Antes de seguir para o quarto olhou a cama dos filhos. Não viu ninguém. Apressou os passos. A mulher também não estava na cama. “Onde se meteu aquela danada? Será que foi embora pra casa do pai? É bem possível. Ela vive ameaçando. Acho que foi isso mesmo. Depois ela volta, ela sabe que não pode viver sem mim. Mas que dá uma agonia dá. Preciso descansar um pouco. Estou sentindo as pernas fracas”. Abriu a geladeira, mas só encontrou as garrafas de água. A cama arrumada era um convite. Passou a chave na porta e deitou-se. Menos de cinco minutos acordou assustado com a mulher batendo levemente no seu ombro:
- A que horas nós vamos pro “Galo”? 
******** 
Contra o veneno do racismo 
Republicação do texto de Ricardo Matos Bezerra C. Vieira - Rio de Janeiro- RJ – Publicado no Humanitas nº 01- Setembro/2012 

Sou descendente de nordestinos, também, assim como de sulistas, de cariocas da gema, de sarracenos, negros, portugueses (anteriormente miscigenados, ainda na Península Ibérica), indígenas, mamelucos, cafuzos. Somos alvarengas, fogoiós, lilases, marinheiras, castanhos, enxofrados, melados, pálidos, roxos, sararás, turvos, verdes! Como definiu Darcy Ribeiro, somos um POVO NOVO que se formou pela influência cultural e miscigenação de várias etnias.
Pessoas que destilam o veneno do racismo guardado dentro de si e deixam escapar em brincadeiras com os mais íntimos, em momentos de efusão emocional ou cobertos pelo anonimato, esses são, em parte, os POVOS TRANSPLANTADOS sobre os quais também escreveu o citado antropólogo. Eles mantiveram os costumes dos países de origem, como em certas colônias no sul do Brasil onde alguns apoiaram o nazismo na época, assim como na Argentina e no Uruguai que receberam criminosos nazistas no pós-guerra. Já ouvi alguns sulistas dizerem que têm sangue azul (de brincadeira, claro. Inocentes brincadeiras).
O que seria de São Paulo sem os nordestinos? O Brasil começou no Nordeste. De lá, muitos vieram para cá bem antes dos movimentos migratórios mais recentes do século passado. Sei que muitos paulistas consideram-se quase italianos. Da Itália temos muitos episódios de preconceito. Talvez alguns deles queiram se esquecer da intensa miscigenação na Bota desde a antiguidade. No sangue deles corre todo o Magreb, Machrek, Pérsia e até, quem sabe, a Etiópia que eles colonizaram por breve período. O preconceito ultrapassa a barreira da informação e cultura, pois é um elemento absorvido desde a mais tenra infância. Pobres coitados esses racistas, pois eles têm vergonha de si mesmos enquanto cortejam excessivamente o estrangeiro, acabando-se em louvores aos austríacos, saxões, bávaros, italianos, franceses, ingleses, irlandeses, escandinavos, eslavos.
Muitos japoneses percebem-se superiores aos filipinos, malaios, vietnamitas ou chineses. Na Era Tokugawa os japoneses costumavam referir-se aos indianos como "aqueles macacos pretos do sul" e aos europeus germânicos como "sujos ursos dourados peludos com olhos de gato que deveriam ser expostos em jaulas". É a loucura suprema sobre a qual escreveu Erasmo de Rotterdam: "Cada povo considera-se melhor que o outro e orgulha-se profundamente da sua nação". Dentro de um mesmo país, cidade ou até bairro há polarizações preconceituosas. 
Os seres humanos, tão orgulhosos de si, vistos do Olimpo, se parecem mais com formiguinhas correndo de um lado para o outro. De vez em quando alguma catástrofe ou epidemia leva milhares deles, sejam nobres ou padres, ricos ou pobres, verdes ou roxos - o que mal se percebe lá de cima.

Todo começo é uma célula, um grão



Texto de Manfred Grellmann – Camaragibe/PE 
 Publicado no HUMANITAS nº 22 – Maio/2014 – Página 5

 Os smartphos-zubis ou face-zumbis
são um gritante exemplo destes
vícios estranhos ainda desconhecidos
há cerca  de duas  décadas
 
A quantidade de problemas que o mundo moderno, turbinado pela tecnologia, tem acumulado, criou um estado muito difícil para ações efetivas de reorganização da sociedade para que ela possa se sustentar de forma duradoura. Obviamente, há gente capaz de fazê-lo,  como demonstram ações pontuais e  ainda é possível,  mas a súcia do poder, da maldade destruidora, é mais forte. Já fiz perguntas a pessoas como se elas já pensaram alguma vez de que é mais do que  necessário se decidir pelo abandono de certas tecnologias, cancelamento da fabricação de vários produtos e materiais, principalmente aqueles que não podem ser reciclados? Este tipo de pergunta surpreende e incomoda, porque todo mundo só conhece desenvolver, criar, novo, índice maior, crescimento, desenvolvimento, descartar  e aquilo que está na moda. As pessoas se esquecem completamente que crescer, subir, desenvolver tem limites, que o tipo de sociedade que conhecemos e endeusamos tem seus dias contados. Não há escada que só tem começo, mas não tem fim.
Então, o que está aí, com a filosofia que permeia as cabeças, é uma monstruosa  armadilha que, para ser desarmada é literalmente impossível! O desarme acontecerá, infelizmente, pelo terrível  preço do desastre! Somos homens destinados ao suicídio coletivo! Mas, isto é tema quase inesgotável O que desejo abordar, é algo muito menor e inocente até, porque: o pequeno está no grande, e o grande está no pequeno.
Em uma feira de rua num sábado em São Paulo, parei em uma barraca para tomar um caldo de cana. Enquanto saboreava, notei que não havia refrigerantes nela, tampouco nas redondezas da feira. Ao que indaguei o porquê disso. O proprietário respondeu dizendo que era uma imposição da prefeitura. A resposta  me causou surpresa e não ficou sem questionamento.
A explicação: a prefeitura reconhece que se for oferecido caldo de cana e refrigerantes, os fregueses tomarão somente refrigerantes  e não caldo de cana, que é muito mais saudável .
Absurdo, não? Cadê a liberdade de escolher o que se quer  vender e beber?
Um fenômeno recente  que se configura em  um comportamento  de exclusão social, de alienação, de comportamento drogado, literalmente de alienação social, são os smartphon-zumbis. É uma praga planetária. É fácil chegar em algum lugar e ter a sensação de estar num  espaço vazio.
Ou seja, não há ninguém, porque todos os presentes estão conectados! Não há forma mais clara de qualificar, exemplificar  um zumbi. Basta olhar para uma figura destas, teclando com vista congelada e imóvel na tela!
Recentemente, numa fila de banco, ouvi um frenético e veloz teclar em um celular com uma mão apenas. Era uma moça repetindo um jogo eletrônico com pequenos intervalos com olhar perdido pelo espaço, quando ela recomeçava tudo novamente.  Me passou a imagem da artificialidade humana de um mundo sem perspectivas reais ou sentido de vida, uma agonia de não saber como direcionar  suas expectativas, se é que as tem, de forma sadia, cujo mundo se resume no  horizonte da tela  digital. Sem dúvida, este aspecto novo como muitos outros da sociedade moderna, é um caminho sem volta que irá contribuir para  o possível  suicídio da espécie ou redução a poucos exemplares.
Pois bem! Há outros exemplos de práticas absurdas que se instalaram  entre os povos. Recentemente, li sobre estudos que mostram que as áreas cerebrais que são ativadas de forma viciante no consumo de drogas, álcool, cigarro etc, são também as mesmas  acionadas por sentimentos fortes, como  paixões.
Na literatura não faltam exemplos de vidas destruídas por  paixões arrebatadoras, sejam elas quais tenham sido. O comportamento viciante da era digital é certamente uma surpresa  para os desdobramentos das manias que o cérebro consegue desenvolver.
Os smartphos-zubis ou face-zumbis são um gritante exemplo destes vícios estranhos ainda desconhecidos há cerca  de duas  décadas. No estado de São Paulo, recentemente, uma mulher foi  internada em uma clínica para tratamento de drogados, não porque ela era viciada em crack, cocaína, heroína etc.
Mas porque não conseguia  largar seu celular ou computador acessando as redes sociais, fato que  a fez esquecer de levar a filha para a escola, de dormir, de comer e finalmente perder o emprego e observar o fim de seu casamento.
Neste mundo travestido pela mídia e a falsa  propaganda novos problemas e vícios minimizam e se sobrepõem a antigos, fazendo com que os referenciais de conduta se desloquem  de forma  impercebível  para a maioria esmagadora, que confunde alteração com evolução e modernismo, e muito menos veem nisto algum processo de degradação.
Desde o início da televisão, pensadores alertavam sobre malefícios deste meio de comunicação da forma como estava sendo usado. Coisas como destruição do diálogo, visitas que transcorriam em silencio, não raro, as únicas frases trocadas eram boa noite na chegada e até logo na saída.
Expor as crianças a assuntos que ainda não estavam maduras para uma confrontação. A péssima qualidade dos programas, desde o início nivelados por baixo e até chamados, na época, de eventos culturais.
Não se pode trabalhar, concentrar-se ou conversar quando a TV está ligada. Tipicamente este equipamento é para ser usado em momentos de tempo livre e vontade de assistir àquilo que se deseja, seja  informação ou distração.
Ora, a TV já impõe nos lares um desligamento social e  coloca o  diálogo em família na UTI. E quando há algum diálogo é sobre o lixo, não o tratamento do lixo, mas sobre o lixo “cultural” chamado: NOVELA e, pior, BBB !
Onde estamos e quanto caminho ainda falta para chegar ao fim!?

Revisitando a ditadura de 1964/1985: tempo de embustes



Texto do jornalista Celso Lungaretti – São Paulo/SP
Publicado no HUMANITAS nº 22 – Maio/2014

A ditadura de 1964/1985 acobertou todos os
 crimes praticados pelas multinacionais.
O êxito da operação de acobertamento se deveu
ao fato de que os mortos eram irrelevantes
 Uma falácia das  viúvas e discípulos da ditadura  de 1964/1985 são as comparações desfavoráveis à democracia que espalham entre os desinformados.
Dizem que a economia era mais próspera nos anos de chumbo, que havia menos violência e corrupção etc. Existem pessoas idosas que avalizam esse besteirol, ajudando a desnortear as novas gerações. No fundo, suas opiniões são influenciadas pelas saudades dos tempos em que eram vigorosos e tinham muita vida pela frente. Tudo lhes parecia melhor então.
Ademais, o homem comum tende a engolir a propaganda oficial e a não reparar quando notícias lhes são sonegadas pela censura. A percepção do  povão  que aplaudia o sanguinário ditador Médici quando ele ia posar de torcedor no estádio do Maracanã era bem diferente da de quem conhecia as entranhas, os escândalos abafados e os esqueletos nos armários do regime.
Hoje, por exemplo, há total transparência nos casos de produtos e serviços que por quaisquer imperfeições causam prejuízos e/ou malefícios aos consumidores. Nos estados policiais as informações adversas são sonegadas dos cidadãos com a maior sem cerimônia.
Foi o que fez a ditadura militar brasileira com as mortes de trabalhadores rurais intoxicados por defensivos agrícolas e com uma epidemia de meningite, nas duas vezes, pretensamente, para evitar o pânico.
O primeiro episódio eu acompanhei de perto. Trabalhava na agência de comunicação empresarial que, em meados da década de 1970, foi contratada por uma multinacional para evitar que repercutissem as seguidas ocorrências de envenenamento de cidadãos brasileiros nas áreas rurais.
Tratava-se de um contrato tão crapuloso que a conta era integralmente paga pela tal multinacional, mas o trabalho executado em nome de uma associação fantasma de fabricantes de agrotóxicos, criada às pressas para servir como fachada.
Coube-me redigir material de imprensa destacando a  notável contribuição que os defensivos agrícolas estariam dando à agricultura brasileira e os  terríveis  prejuízos que sua eventual proibição acarretaria: fome da população, desemprego no campo, queda das exportações.
Eram textos aparentemente inocentes, mas não o que estava por trás deles: o raciocínio desumano de que, para evitarem-se tais prejuízos, poderiam ser relevadas as mortes que foram noticiadas. Muitas outras não o foram, com a conivência das  otoridades.
Pior ainda era o papel do dono da agência, um pioneiro da área de assessoria de imprensa e eventos (por ele designados como promoções), que se incumbia pessoalmente de falar com os jornalistas influentes, distribuindo subornos e fazendo ameaças veladas.
Repugnava-me vê-lo elogiar a si próprio por haver conseguido sustar a publicação de uma notícia sobre mortes de trabalhadores rurais que já descera para a gráfica de um jornalão. “Eu parei as rotativas”, proclamava orgulhoso, para os empresários interessados nos seus serviços.
Ele considerava que haver levado a bom termo uma incumbência tão infame lhe servia como galardão profissional. E não é que os empresários entravam na dele?! Eu assistia e ficava pensando: "Este é o verdadeiro milagre brasileiroo amoralismo e os embustes impunes". 
Participar dessa empreitada foi a primeira grande decepção de minha carreira jornalística.
Muitas outras viriam, com os interesses econômicos prevalecendo sobre o bem comum e eu nada podendo fazer para remediar a situação, sob pena de perder o emprego e ficar com o mercado de trabalho fechado para mim. 
Então, graças à censura sobre a imprensa e aos mecanismos de persuasão dos poderosos, o povo brasileiro  deixou de ser informado dos riscos que corria quem utilizasse agrotóxicos. E ocultar-lhe mortes por envenenamento registradas em todo o País certamente contribuiu para que outras ocorressem.
A tal multinacional jamais ousaria proceder de forma tão leviana no Primeiro Mundo: para reduzir custos, não investira no treinamento adequado dos usuários de seus produtos. Mesmo assim, com a conivência do regime militar, conseguiu  apagar o incêndio: ministrou rapidamente os cursos que deixara de promover no momento exato e não arcou com as multas astronômicas que lhe seriam aplicadas em qualquer país cujo governo zelasse pelos governados. De quebra, indenizou mal e porcamente, por baixo do pano, as famílias das vítimas, que não tiveram como arrancar reparações à altura da gravidade das perdas que sofreram.
Ficou-me também a impressão de que o êxito da operação de acobertamento se deveu ao fato de que os mortos eram irrelevantes. Se os finados não fossem os coitadezas dos grotões, certamente aquelas mortes acabariam tendo maior repercussão.

TRIBUTO AO POETA MÁRIO FAUSTINO

Publicado no HUMANITAS nº 22 - Maio/2014
MÁRIO FAUSTINO (1930-1962) - Piauiense, de Teresina, iniciou-se como cronista n´A Província do Pará, aos 16 anos. Foi bolsista na Califórnia, de 1951 a 1952, estudando a literatura de língua inglesa. Tradutor da ONU, NY, 1959-1960. Autor de um só livro – O Homem e sua Hora (Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1955) e de poemas esparsos, publicados em revistas e jornais. Notabilizou-se como crítico literário no SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil) com a seção Poesia-Experiência, no auge dos movimentos concretista e neoconcretista. Traduziu Ezra Pound ao nosso idioma. Faleceu vítima de um acidente aéreo nos Andes peruanos, em missão jornalística.  A Global Editora, de São Paulo, publicou os seus “Melhores Poemas”, selecionados por Benedito Nunes, merecendo várias reimpressões.

REFÚGIO POÉTICO

Poemas publicados no HUMANITAS nº 22 - Maio 2014
Amiga
Rafael Rocha – Recife, 16/04/2014

Amiga! A carência de amar tem mil sabores
Quentes e frios! Salgados e amargos!
Amiga! A solidão é um manto de mil cores
Estrelas e cometas brilhando em céus largos.

Sinta na pele a solidão e a carência.
O prazer do não amor é algo inquietante.
Precisas (na verdade) curtir a paciência
Para alcançar o horizonte tão distante.

Amiga! Eu sei o quanto o teu corpo necessita
Do sal de outro corpo entre os teus lençóis.
Eu sei o quanto a tua carne humana grita
Por um gozar maciço em milhões de sóis.

Tenha ciência do sentimento a dar-te fome
No ventre úmido e na boca onde persistes
A gritar em pesadelos aquele antigo nome
Do amante que deixou teus olhos assim tristes.
 ******
Tua solidão
Antonio Carlos Gomes – Guarujá/SP

Quando vejo tua solidão,
Menina.
Tua vontade de chorar...
As pupilas pequeninas
Buscando avidamente
Amar...
Meu interno
Nubla condoído
Por se identificar.
Mas projeto
Vejo externo
O que tenho contraído
Faço um verso
Sigo a vida
Tento ser distraído
Para não chorar.
 ******
Desfecho
Karline Batista – Aracati/CE

Poderia tentar esquecer-te
Assim que aprender a arrancar o coração
E jogá-lo na curva de uma onda morta
Que o levasse para a imensidão

Aturdindo meus pensamentos
Rabiscando com a razão
Te faria versos novos
Como alento da solidão

E lançar nos últimos raios
As palavras jamais ditas
Pendurando em algum astro
O desfecho de minha desdita
 ******
Cinzas
Genésio Linhares – Recife/PE

Cinzas de silêncio e solidão
Embaçam a janela da minh’alma
Turvando do mundo sua visão
Caminho lento por sua estrada

Cenário desolador do não
Folhas secas, sem rios, gado morto
Tardes esmaecidas sem canção
Cinzas, cinzas exilam minh’alma

O nada impera e dita sua lei
Não há horizontes a sonhar
Só brumas de cinzas encontrei

Consome-se o dia em outro dia
Partiu a vida sem me beijar
Soçobrou cinzas nesta vil grei.
 ******
Amor solitário
Valdeci Ferraz – Caruaru/PE

Minha mão flutua sobre teu corpo
Como um passarinho a procura de repouso.
Meus lábios anseiam os teus
Assim como a flor anseia a carícia do vento.

A escuridão presa no quarto
Ameaça romper as paredes
Para alongar a noite.

Tremores – o sangue
Gemidos – a alma

Mas teu corpo indiferente
Enrijecido pelo sono
Esmaga sobre os lençóis
Meus anseios de homem.

E eis que as paredes se rompem
E me vejo perdido no meio de uma noite
Que parece nunca acabar.
******
“Fácil é dizer "oi", ou "como vai ?".  Difícil é dizer "adeus"...  Fácil é abraçar, apertar a mão. Difícil é sentir a energia que é transmitida... Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só...” Carlos Drummond de Andrade
******
“Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. Eu sou, eu sou, eu sou.” Sylvia Plath



terça-feira, 29 de abril de 2014

EDITORIAL - CARTAS - ARTIGO DE ANTONIO CARLOS GOMES E EXPEDIENTE

Textos publicados na página 2 do 
HUMANITAS nº 22 - Maio/2014
 EDITORIAL

O Homus Primitivus

Não há como deixar de observar na evolução do Universo que existe certo equilíbrio entre as diversas dimensões que o compõem. Incluindo nisso a evolução que ocorre no planeta Terra, a qual se manifesta através de grandes e demorados processos. A natureza terrestre, através de suas manifestações físicas, apresenta ao homem processos com muitos e especiais graus matemáticos, físicos, biológicos e químicos, os quais vêm de priscas eras geológicas. Dentro desse procedimento, o animal homem continua a evoluir, ainda que sua evolução ataque e atinja erradamente os processos de expansão do planeta.
O universo não para de se expandir. Essa é a verdade única. Mas o homem prende-se à ideia de que a criação e a evolução de sua espécie são responsabilidades de um deus. É nesse ponto que as maravilhas apresentadas pela natureza aos olhos humanos são esquecidas como parte e reino naturais para serem admiradas como obra de um criador, o qual é muito excêntrico, pois ninguém sabe quem ele é, como é, e o que pretende.
Isso é lamentável!. Numa época onde a ciência devia estar tão evoluída que o homem pudesse fugir dos conceitos fantasiosos de deus, santos, diabos e trindades divinas, cada vez mais a raça regride e se entrega, comodamente, às superstições milenares. Assim fica fácil aceitar as incertezas e as crueldades e até mesmo as tragédias.
Na sua ignorância tribal o homem diz que se um avião caiu no mar e todos seus ocupantes morreram, foi porque um deus assim o quis e nada podemos fazer contra o poder de tal deus. Ou, ainda, se existe fome no mundo essa é uma provação para que o homem aceite o filho de tal deus como a divindade verdadeira e única e acredite que após a morte não mais haverá fome, nem guerras, nem desastres aéreos. Acredite, morra e salve-se.
O que significa tal pensamento? Primitivismo! Nenhum deus que seja criador pode se dá ao luxo de destruir sua própria criação apenas para ser aceito por ela. Mas a mentalidade humana, insuflada pelos poderosos da religião, não aceita a verdade cruel de que um deus desse tipo é que é a fatalidade mesma da crença.
Portanto, o homem deixa de construir um mundo com uma dimensão de qualidade humanitária, porque existe um deus para ele acreditar. E deixa de construir um mundo onde todos possam viver, progredir e realizar tudo que desejar, porque um deus não aceita essa forma de ser e de viver libertos dele. Assim, o homem abandona suas prerrogativas de transformar para melhor o mundo que o cerca para não magoar seu deus, que nada mais é do que sua própria fantasia interior de vida eterna.
E dedica-se a destruir tudo que a natureza cria e recria por acreditar que tal deus é dono dessa criação, esquecendo que a natureza evolui de segundo em segundo, de minuto em minuto, de hora em hora, e que tal criador é a maior das mentiras inventadas pelo próprio ser humano para usurpar a ideia de expansão das dimensões universais, que há mais de bilhões de anos vem acontecendo em todo o infinito tanto dentro e fora do planeta Terra, do sistema solar e dos milhares de galáxias.
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Cartas dos Leitores 

Apesar de respeitar o jornalista Lungaretti e ler seus textos, só faço uma discordância em relação ao fato de Jango ser "bobalhão" tal como ele publicou no jornal Humanitas do mês passado. Muitas pesquisas feitas por historiadores e muitos documentos que estão vindo à tona dão uma visão um pouco menos enfática, tanto do recuo de Goulart, quanto da atitude heroica de Brizola. Eu mesma realizei entrevistas que reforçaram a dificuldade de uma reação imediata, além de se considerar que um processo de tomada de decisão envolve uma série de elementos nem sempre publicizados. Jacqueline Ventapane – Rio de Janeiro/RJ 
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Eu não creio que BOBALHÃO seja uma forma de definir uma pessoa como Jango (Humanitas do mês de abril de 2014, texto do jornalista Celso Lungaretti). Se houvesse uma luta armada, além de sermos derrotados e subjugados, muita gente morreria e não dá pra prever a desgraça, e que seria pior do que foi. Tânia Orsi Vargas – Taquara/RS 
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Um ser do acaso
Antonio Carlos Gomes – Guarujá/SP 

Um planeta vivo envolto de uma estranha energia que o movimenta, um pequeno planeta periférico de uma imensidão desconhecida e ignorada. Esta é a cena inicial de tudo que compõe esta esfera ovalada a que chamamos Terra. De uma ínfima junção de energia, com colaboração de dois seres nasceu uma massa disforme, confusa que se multiplicou como possibilidade de ser. Neste acaso que não sei se consentido mutuamente, ou fruto de agressão unilateral descobri-me ser.
De inicio não sabia o que era: apenas via uma massa que se desprendia de mim e já tinha forma definida de tamanho gigante para as parcas sensações que possuía. Conforme me conformava à massa se desprendia e formava fronteiras e o que era um anexo de minha massa criava atividade própria diferente da inexistente atividade que eu possuía.
Parte de mim me submetia e ao mesmo tempo me mantinha vivo. Para viver dependia do que perdi e a parte destacada exigia que eu a amasse e obedecesse para eu continuasse a existir. Sem saída amei e odiei esta parte destacada que me dava o liquido branco chamado leite: Ora sugando-o avidamente, ora mordendo raivoso sentindo a perda de minha integridade total.
A quebra deste todo que imaginava: eu fruto de uma insignificante descarga da energia do planeta, mas que a meu ver fazia-me único; tinha que cindir meu solipsismo em dois, naquele que eu sentia e no outro que se desprendia, mas ao mesmo tempo me cuidava e mantinha-me vivo.
Estava eu no mundo num estranho contrato: Ceder parte de minha onipotência a troco de continuar a existir. Um contrato unilateral sem avalista que me faria pertencente a uma espécie por onde iniciava meu reconhecimento e descobria que não era planta nem, outro animal: apenas um animal humano, pertencente a uma espécie com história e regras próprias.
Estranha relação de espelhos com contrato particular, amar e odiar o que julgava ser eu mesmo, na missão impossível de auto apaixonamento. O espelho em que me via aos poucos me fazia parte do que já era e não sabia. Aprendi que tinha um corpo ao olhar minhas extremidades arredondadas; que por meio de grunhidos chamados choro, podia ficar confortável e alimentado e, da mesma maneira repudiar o que sentia como agressão e estranho, um duplo de eu mesmo com uma parte destacada ensinando-me a ser humano.
Ali comecei a me conhecer e identificar diferente do outro que me espelhava.
Um terceiro apareceu, não era eu nem minha parte. Uma agressão que mudava o contrato ampliando obrigações e retornando obediência.  Descobri que tinham outro e outros que me cercavam e ali estava um núcleo onde eu era apenas uma majestade manipulada e obediente. Assim virei gente.
Descobri que meu duplo era a parte social que teria que aprender e o terceiro e estranho elemento ditaria as regras que seria obrigado a aprender. Sem opção neste contrato imposto por imagens teria que achar uma identidade que justificasse o nome ao qual fui apelidado como expectativa da esperança do grupo.
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HUMANITAS – ANO II - Nº 22

ISSN 2316-1167

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