domingo, 29 de abril de 2018

HUMANITAS Nº 71 – MAIO DE 2018 – PÁGINA 7

EDUCAÇÃO ARMADA – O ÚLTIMO TIRO
Ana Leandro – colaboradora do Humanitas -  é escritora e jornalista. Atua em Belo Horizonte/MG

Fico às vezes me perguntando, quando foi que a “Guerra Contra a Educação” começou? Lembro da minha infância humilde, mas ir para a escola era algo tão natural como fazer refeição diariamente.
Meus pais que iniciaram uma vida conjugal com baixos níveis de escolaridade levaram, entretanto, seis filhos à plena educação, tanto familiar quanto acadêmica. Sempre cito a pitoresca fala de minha mãe que dizia como uma ameaça: “quem não quiser estudar vai puxar carroça quando ficar adulto”.
Bem, a profecia não tinha como se confirmar, pois já no início de nossa idade adulta, não mais existiam carroças para puxar. Pouquíssimas, aqui e ali no interior e quase nenhuma nas grandes cidades.
Talvez possamos dizer “ainda bem”. Mas não! Infelizmente nem tudo que sobreveio foi melhor, porque hoje quando uma mãe quer mostrar ao filho que precisa estudar para ter um bom emprego e futuro, a alternativa não é mais “vai puxar carroça”. Essas não existem.
Mas “formas de ganhar dinheiro” através de drogas e “formação de quadrilhas” não exigem assento nas carteiras escolares, nem diploma, nem tempo demais para render.
Só que uma “boa educação familiar” era a base para que não havendo carroças escolhêssemos “estudo e trabalho”.
O fato é que minha geração não resistia tanto à escola. Ao contrário: fazíamos amigos, formávamos equipes de trabalho para atividades físicas, em classe ou extraclasse.
As formaturas eram verdadeiros eventos em que nós, orgulhosos, desfilávamos de togas e chapéus. Diretores (as) e professores (as) eram espécies de “Reis e Rainhas” na nossa vida, respeitávamos como grandes autoridades, donos de uma sabedoria que admirávamos.
É verdade que passávamos apertos com provas e trabalhos, disputávamos entre colegas quem atingiria maior pontuação. De vez em quando fazíamos traquinagens não aceitáveis e por isto levávamos castigos: “de pé e de costas na parede até ser autorizado a sair”; “assentado nesta cadeira isolada da turma, para você pensar sobre o que fez” etc.
Ai do professor que hoje der tais ordens! Responderá no Conselho Tutelar ou até mesmo na justiça comum por intransigência ou “abuso de autoridade”.
Pergunto: quem são os “grandes perdedores” nesta história? Ir para a cadeia pública, ou viver esmolando uma sobrevida é melhor do que os castigos escolares?
Uma juventude hoje perdida num caos onde todo mundo manda e ninguém obedece é o resultado de deixá-los fazer o que quiserem, sem controle e sem limitações.
Em que momento começou essa guerra?
Eu tenho até hoje memórias de meus professores, como “heróis” que me abriram os caminhos da vida!
Meus pais eram rigorosos, quanto a dar apoio a eles; qualquer reclamação quanto a qualquer professor(a) que fazíamos, mamãe retrucava energicamente: “ele é que sabe o que VOCÊ precisa aprender. Você é que precisa dele e não o contrário. Portanto cale-se e obedeça as decisões dele”.
E “ponto final”.
Levávamos outro castigo em casa. Sou psicóloga na área educacional, sei que o processo educacional tem que se abrir cada vez mais para o diálogo. Mas não para a transferência de responsabilidades.
Mudou-se da palmatória (que eu abomino) para o totalitarismo do aprendiz!
Alunos se dirigem e respondem a professores como a qualquer moleque de rua; usam de palavrões para atacá-los, e por inúmeras vezes já se chegou à agressão verbal e física.
E pasmem: já são inúmeros os registros de assassinatos de professores por alunos!
Para coroar essa guerra, eis que o presidente dos EUA, país referenciado como potência mundial, resolve que se deve “armar alunos, professores e funcionários” das Instituições de Ensino.
A “guerra está declarada”! O “último tiro” da fase em que “escola“ era um lugar que foi feito para se ir “aprender” pode virar agora um grande “campo de guerra”. Todos armados!
Justifica-se que é “autodefesa”. Estamos mesmo em um campo de guerra e o “normal” num lugar onde se vai para aprender “a valorizar a vida”, é mesmo colocar a mesma em jogo?
Isso...
Quem for o mais esperto, naturalmente atira primeiro!
Há poucos dias eu sugeri em um de meus escritos: “E se transformássemos todos os quartéis em escolas?”
Irônicamente, poucos dias depois vejo a notícia de que não, as escolas podem vir a ser “uma das nossas forças armadas”!...

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